Crítica do espetáculo Bundaflor Bundamor por Andrea Spolaor

Foto: Cristiano Prim com Eduardo Severino, Mônica Dantas e Luciano Tavares
Foto: Cristiano Prim com Eduardo Severino, Mônica Dantas e Luciano Tavares

Como pode o corpo ser resumido a uma parte dele? Como esta parte pode causar tanta polêmica? Como quebrar com

esta controvérsia? Transformando em dança.


Bundaflor, Bundamor da Eduardo Severino Cia de Dança apresentado dia 30 de maio na Sala 209 da Usina do Gasômetro consegue.


Inspirado no livro “A Breve história das Nádegas” de Jean Luc Henning o espetáculo se propõe a falar sobre a bunda, seu desenho, possibilidades motoras e aproveita para abordar esta parte do corpo humano no contexto brasileiro atual que como o próprio release do espetáculo diz: “…a bunda brasileira, formada graças à herança genética africana, como massa carnal rebolante que mostra a nossa alegria mestiça.”


Eduardo Severino e Luciano Tavares integrantes da companhia (que funciona como uma espécie de coletivo agregando novos integrantes a cada montagem), Mônica Dantas, bailarina experiente que acompanha o trabalho desde sua estréia em 2008 e dois convidados para esta temporada (Andrew Tassinari e Junior Alceu Grandi) compõem o quinteto de bundas, de corpos, de danças apresentado naquela noite. O trabalho ainda conta com a participação de Ana Paula Reis para a cena inicial que já demonstra a veia cômica e leve do trabalho onde os cinco se preparam para uma corrida, sentados no chão de costas para a platéia, cujo prêmio é uma banana que Ana carrega juntamente com seu apito dando início à competição. Sungas e micro maiôs vestindo corpos lindos que borram conceitos de dança, teatro, performance e se propõem a comunicar com eles. Nada de especial em se tratando de figurinos cenários e iluminação, pois o ponto em questão é a bunda, porém aponto a trilha inteligentemente escolhida iniciando com “Não Me Diga Adeus” na voz de Aracy de Almeida até o famoso “Piripiri” da Gretchen, além do som de batidas do coração que finaliza o espetáculo aliado à imagem das bundas contraindo no mesmo ritmo.


Apesar de estarem todos comungando da mesma idéia saliento diferenças entre as presenças cênicas. Mônica, a única mulher o tempo todo em cena toma o posto de “musa do Bundas” não deixando nada a desejar, Luciano Tavares com anos de experiência em dança tem momentos primorosos como sua fala em espanhol sobre “el diablo no tener culo” e a cara de constrangimento ao iniciar o “Piripiri” (impagável), os convidados entram no jogo, mas é no corpo e na dança de Eduardo Severino que se faz o ponto alto do espetáculo. Movimento inteiro, íntegro e com facetas mil que pode num mesmo espetáculo andar e saltar de salto alto numa cena cômica e dançar em outras cenas mais “sérias” com a mesma integridade, bagagem e potência. Palmas!


Saliento que as diferenças entre os cinco intérpretes, na minha opinião, não passam pelo bom ou ruim, mas pelo olhar refinado de entendimento entre trajetórias de dança, de experiências e de vida, onde o agregamento de informações codificadas ou não em dança se faz explícito e é aí que mora a diversidade daqueles corpos em cena. Também percebo os entendimentos diversos entre o elenco sobre mostrar a bunda e o que isto significa na sua essência dentro do espetáculo, pois ele não se propõe ao exibicionismo ou a querer mostrar mais do que isso, mas ao fato de coloca-la em discussão para além dela própria.


No decorrer do espetáculo me ponho a pensar sobre o corpo em si e seus pudores, principalmente em lugares frios como Porto Alegre onde a grande maioria toma seu banho e se fecha em sua roupa sem tomar conhecimento do que tem de mais sagrado, seu elo de conexão com o mundo, seu próprio corpo. Os bailarinos parecem não ter este problema. A naturalidade com que se despem e vestem nada tem de vulgar e este é um trunfo do trabalho. Com maturidade cênica e consciência dela se fazem valer da dança para discorrer sobre questões diversas como gênero, pudor, ideal de beleza. Assim, o tema bunda transcende e atravessa outras questões.


A Eduardo Severino Cia de Dança é uma companhia com trabalhos não comerciais, que não se quer comercial, no entanto circula no Brasil, e fora dele, com seus espetáculos. Este ponto faz-me acreditar em curadorias mais antenadas à diversidade da/na dança.

Termino com uma reflexão. Dança produz conhecimento quando propõe discussão, quando contextualiza corpos nos tempos e nos espaços propiciando dilatar conceitos do artista enquanto cidadão. É possível a dança para além da sua estética usual. É linda a dança quando dançada no mais amplo sentido desta ação. Bunda é dança, curva e plenitude sim!

Bundaflor, Bundamor estará em cartaz no próximo Porto Alegre em Cena. Assistam!

Disciplina Estudos em Estética e Dança (Curso de Graduação em Dança UFRGS)

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